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sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Partos e Abortos / ISTOÉ

Estima-se que um bilhão de pessoas em todo mundo tenham assistido na semana passada a um dos mais fantásticos acontecimentos dos últimos anos: o "parto" dos 33 mineiros chilenos, que foram renascendo, um a um, até subirem á superfície. Em vez do ventre materno, eles viveram 69 dias nas profundezas da mãe natureza. No lugar da placenta e do cordão umbilical, foram protegidos por uma cápsula metálica, com tubos de oxigênio. Foi como se a Terra parisse os homens e os devolvessem à luz.
Felizmente, esse resgate tão extraordinário permitiu uma pausa no noticiário sobre a disputa eleitoral brasileira. Aqui, os dois candidatos, Dilma Rousseff e José Serra, têm contribuído para fazer com que o processo sucessório mergulhe na mais completa escuridão. No mesmo dia do parto chileno, Serra compareceu á Basílica de Aparecida para explorar, de forma oportunista, um tema que deveria ser interditado em qualquer campanha presidencial: a religião. Embora tenha defendido o Estado laico, uma onquista da civilização, ele fez questão de citar seu programa para gestantes, o Mãe Brasileira, e de dizer que "cada coraçãozinho novo que bate no Brasil é uma esperança que se renova". Um recado claro em relação ao tema do aborto, que, a cada dia, consome as energias da candidata do PT - aquela que, segundo Mônica Serra, esposa do presidenciável tucano, defenderia o assassinato de criancinhas.
Em vez de esclarecer de uma vez por todas a sua posição, Dilma tem feito malabarismos que seriam desnecessários se dissesse algo muito simples. No íntimo, qualquer pessoa pode ser contra ou a favor do aborto - e a candidata petista provavelmente seria contra. Mas, como eventual presidente da República, é impossível fechar os olhos para uma realidade concreta: o Brasil realizou mais de 940 mil procedimentos abortivos em 2009, que foram responsáveis pela morte de 200 mulheres. Ou seja, embora não tenha sido legalizado no País, o aborto é feito à luz do dia. E as mulheres que correm mais riscos são as mais pobres, sem acesso ás clínicas particulares.
Nesse breu eleitoral, Dilma reuniu-se com os evangélicos e prometeu divulgar uma carta aberta condenando temas polêmicos, como o aborto e o casamento gay. É como se o Brasil, um país com 15% da população ainda vivendo na miséria, com índices inaceitáveis de violência urbana, uma infraestrutura sucateada e com educação sofrível, não tivesse problemas mais urgentes a resolver.
O risco é o eleitor chegar à conclusão, no dia 31, de que os dois candidatos são completamente alienados. Vivem alheios á realidade, como se estivessem soterrados nas trevas de uma mina chilena.
Leonardo Attuch
Istoé, nº 2136 - 20 out/2010, pg 49

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

O Analfabeto Político

O pior analfabeto é o analfabeto político.
Ele não ouve, não fala, nem participa dos acontecimentos políticos. Ele não sabe que o custo de vida, o preço do feijão, do peixe, da farinha, do aluguel, do sapato e do remédio dependem das decisões políticas. O analfabeto político é tão burro que se orgulha e estufa o peito dizendo que odeia a política. Não sabe o imbecil que, da sua ignorância política, nasce a prostituta, o menor abandonado, e o pior de todos os bandidos, que é o político vigarista, corrupto e lacaio dos exploradores do povo.

Bertolt Brecht